
Evento reuniu gestores, forças de segurança e movimentos sociais na Escola de Saúde Pública da Bahia para articular políticas integradas de combate à violência de gênero.
A Escola de Saúde Pública da Bahia (ESPBA) foi palco, na manhã desta terça-feira (31), de uma mobilização estratégica em defesa da vida das mulheres baianas. O seminário “Todos por Todas: Fortalecendo a Rede de Atenção à Mulher no SUS Bahia” reuniu gestores públicos, representantes das forças de segurança e lideranças de movimentos sociais para articular respostas transversais à violência de gênero no estado.
O evento marcou o lançamento da campanha “SUS POR ELAS: Saúde é viver sem medo”, apresentada pela Secretária Executiva do Conselho Estadual de Saúde (CES-BA), Zirlene Matos. A iniciativa, que passa a ter caráter permanente, busca fortalecer o SUS como espaço permanente de cuidado, acolhimento e proteção às mulheres em situação de violência, integrando saúde, informação e rede de apoio.
“Viver sem medo é ter acesso à saúde, à informação e a uma rede que funcione quando mais precisamos”, enfatizou Zirlene Matos durante a abertura do evento.
A abertura reuniu vozes plurais na mesa solene. A Coordenadora Executiva de Fortalecimento do SUS da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab), Roberta Sampaio, ressaltou a importância de espaços de debate para romper ciclos históricos de violência. A conselheira estadual e coordenadora da Comissão Intersetorial de Saúde da Mulher (CISMU), Soraya Amorim, destacou o papel do controle social na garantia das políticas públicas.
A coordenadora do GT de Projetos e eventos do Núcleo de Lauro de Freitas da RENAFRO, Ekedi Josy Andrade, defendeu que a prevenção deve começar nas escolas, alcançando meninos na desconstrução da misoginia desde a base. A superintendente da Superintendência de Vigilância e Proteção da Saúde (SUVISA), Dra. Rivia Mary de Barros utilizou a metáfora do voo coordenado dos pássaros para simbolizar a necessidade de união entre as instituições. O subsecretário de Saúde, Dr. Paulo Barbosa classificou o machismo como uma “patologia social” que demanda o engajamento ativo dos homens para sua erradicação.
O seminário foi estruturado em dois grupos de discussão. Na primeira roda, dedicada à transversalidade no combate ao feminicídio, a pedagoga e vice-presidente do Conselho de Mulheres de Lauro de Freitas, Thiffany Odara, alertou para a urgência do olhar interseccional nas políticas públicas. Segundo ela, mulheres trans e negras ocupam patamares distintos de vulnerabilidade que não podem ser ignorados. Thiffany também criticou o veto a debates de gênero nas escolas da rede municipal de Salvador, relacionando essa ausência à perpetuação do ciclo de violência.
No campo jurídico, a ouvidora da Polícia Civil, Dra. Heloísa Brito ressaltou que avanços legislativos, como a lei do homicídio vicário, não são suficientes sem uma mudança cultural profunda. Como resposta prática, a Defensora Pública Dra. Carolina Araújo, do Núcleo de Mulheres da Defensoria Pública do Estado da Bahia (NUDEM), anunciou a criação de uma central online de medidas protetivas para o interior do estado, com suporte jurídico e acolhimento via Núcleo de Apoio Psicossocial (NAPE).
A major Alcilene Coutinho, da Secretaria de Segurança Pública, foi direta ao apontar que qualquer revitimização nos serviços públicos representa uma falha coletiva. “Quando a mulher busca ajuda e a porta se fecha, nossa rede falhou e ela se torna vítima de feminicídio”, afirmou. Ela defendeu que as instituições devem abandonar vaidades e focar exclusivamente na centralidade da mulher.
Na segunda roda, voltada ao papel do SUS no acolhimento de mulheres, Juliana Brito, presidente do Conselho Municipal de Ribeira do Pombal, humanizou o debate ao compartilhar sua trajetória como sobrevivente da violência, reforçando que nenhum perfil está imune e que o acolhimento deve ser livre de julgamentos. Erica Bowes, diretora de Gestão do Trabalho e Educação na Saúde, encerrou as discussões lembrando que 75% da força de trabalho do SUS é feminina, o que torna a proteção dessas profissionais vital para a própria sobrevivência do sistema.
Em desfecho, os debates ratificaram que o combate efetivo ao feminicídio exige a superação de disputas institucionais e a consolidação de uma rede integrada, capaz de colocar a mulher no centro de todas as ações. A campanha “SUS POR ELAS” representa um passo nessa direção, transformando o SUS Bahia em território de proteção permanente para todas as mulheres.


